/ julho 24, 2016/ Contos, Destino, No Café

Sexta-feira, Av. Paulista, a mais linda Avenida de São Paulo, e que ainda me liberta diversas lembranças e emoções. A hora era agora, exatamente 18:32:15h e o tempo chuvoso convidava, para mais uma saída da rotina, um pedido praticamente irrecusável.

O vento soprava, afiado e sorrateiro, corriqueiro, abafado somente pelo vai-e-vém dos diversos carros que desfilam pela avenida, juntamente com os gigantes e lotados ônibus repletos de paulistas medrosos e molhados, gozadores e amantes do chamado calor humano condensado.

No café, o ponto de vista estratégico me permitia olhar atentamente cada detalhe da rua, bem como cada pessoa que por ali passava, seja ele ou ela. Enquanto isso, discretamente tomava o meu café preferido com uma das revistas da semana, sem correr o menor risco de ser notado ou interrompido de uma leitura completamente superficial.

De repente, ela surge, linda e glamurosa em seu vestido preto e sapatos alto, cabelos louro cacheados caídos levemente sobre os ombros. Passos adiante, e senta-se à mesa ao lado, cadeiras ligeiramente próximas o suficiente para que eu sentisse seu perfume doce e sutil.

Discretamente, olho para o lado e percebi ela me observando. Fiquei sem reação e sorri de volta, sentindo meu rosto corando imediatamente como quem tomou muito sol no fim da tarde de verão. Olho novamente, e lá estava ela, olhando fixamente, enquanto fazia o seu pedido. Me sinto encurralado, como a presa prestes a ser consumida em seu suspiro final.

Todo jogo é para dois, sempre em uma disputa acirrada, até que um não consiga acompanhar, e deixe-se por vencido. Infelizmente, essa batalha já era ganha desde o início e certamente não por mim, por ela. Perdi a conta de quantas vezes me peguei olhando-a de relance, e em quase todas, eu era observado.

Minutos depois, vai ao caixa e paga a conta, deixando sobre a mesa, somente os talheres e louças sujas. Ainda da minha mesa, me estiquei para observa-la, e ela novamente, fazia o mesmo. Não me contive, sorri, a acompanhando com os olhos, enquanto atravessava e sumia pela avenida.

Pela primeira vez me senti assim, encurralado e sem saída. Por fora, sorria sem graça quieto no meu canto. O que havia acontecido foi completamente fora do normal. E após alguns instantes de extrema reflexão e brigas internas sobre o que deveria ter feito ou não, a única pergunta que ainda me mastigava era porque não retribuí o sorriso mais cedo.

Ainda fiquei na minha mesa mais alguns minutos, enquanto a garoa se tornava mais suave, com ventos menos agressivos e, claro, com um trânsito mais sutil. A hora perfeita para ir para casa. E assim o fiz, chamei a atendente e pedi que me trouxesse o cigarro que fumo junto com a conta.

Quando abri a caderneta com a conta, veio a grande surpresa. Junto com o valor total, havia outro papel, dobrado com alguns escritos. Ela disse: “Apenas pediram para acrescentar à sua conta, quando a pedisse“.

Adorei os seus olhos, aceita um café?
Me ligue mais tarde, 9xxxx-yxyv

Não vou ligar… Nem sei se quero… Mas… Como eu gostaria de ter sido mais ousado…

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